Carta Aberta aos Vereadores de Novo Hamburgo, RS
Prezados Senhores Vereadores
Vos escrevo como cidadão hamburguense, consumidor, em dia com seus tributos municipais e, por motivos de força maior, um trabalhador de Porto Alegre, na intenção de trazer à luz alguns fatos que possam elucidar a importância da manutenção dos horários de funcionamento atualmente aplicados aos estabelecimentos determinados como “hiper, super e mini mercados”, no que tange ao substitutivo ao projeto de lei “SUBSTITUTIVO AO PROJETO-DE-LEI Nº 56/15L/2009”.
Senhores, há muito tempo Novo Hamburgo deixou de ser a “Capital Nacional do Calçado”, onde havia a tão falada pujança econômica de grandes grupos calçadistas. Não somente Novo Hamburgo, como todo o Vale dos Sinos. Uma série de fatores econômicos e políticos locais e globalizados determinaram a migração de mercados de produção industrial para outras localidades, como o Nordeste do Brasil e até mesmo a China.
Desde então, nosso vale vem em plena decadência, refletida na falta de poder econômico da maioria das pessoas, bem como na oferta de empregos. Eu mesmo comprovo a dificuldade de voltar a trabalhar na cidade onde moro, tendo que atuar em Porto Alegre. Esse fator, agregado à falta de capacidade de gestão dos governos estaduais, presentes e anteriores, em gerir decentemente as condições de transporte, fazem com que trafegar na BR-116 todos os dias torne-se não somente estressante, como também não permite que eu esteja em Novo Hamburgo antes das 20 horas.
Como consumidor e certo de que Novo Hamburgo necessita de arrecadação, serei forçado a não mais realizar compras na minha cidade, o que novamente afastará mais ainda a arrecadação dos impostos municipais. Mas obviamente sou apenas um e esse fato não refletirá em vossa apreciação.
Mas o que me deixou consternado foi a alegação, publicada no site do Jornal Zero Hora, de que os pequenos empresários estão reclamando da segurança pública com relação a seus estabelecimentos. Infelizmente, por motivos econômicos, Novo Hamburgo tornou-se uma cidade violenta. Sinto em dizer isso e eu mesmo, em maio desse ano, enviei um correio eletrônico para a Comissão de Segurança da Câmara de Vereadores clamando por segurança, pois fui vítima de um assalto às seis e vinte da manhã, quando me dirigia à Rodoviária (Fenac). Não posso acreditar que essa argumentação seja a base desse projeto, pois não temos segurança em muitos locais. Pagamos a “Faixa Nobre” para estecionar nas ruas do Centro e contudo nossos automóveis são roubados em quantidade inacreditável. Eu pago meus impostos e sou assaltado para ir ao trabalho. Um colega de trabalho, moradodor de Novo Hamburgo também foi assaltado na mesma semana retornando da faculdade há uma quadra de caminhada desde o ponto de ônibus até sua residência. Na mesma semana a mãe de uma amiga minha teve seu veículo furtado na Rua Domingos de Almeida, bem em frente à uma padaria e ninguém viu o fato.
Sei que grandes redes possuem recursos para manter seguranças, estacionamento próprio e outras facilidades, mas isso é meramente um fator de mercado. Essas redes um dia foram pequenos estabelecimentos que, pelo trabalho de seus proprietários, tornaram-se as grandes redes que conhecemos e portanto podem oferecer recursos e diferenciais competitivos diferenciados. Aqueles que acompanham o mercado globalizado, de grandes redes de hipermercados sabem que a tendência é que um pequeno número de grandes redes venham a tomar conta dos mercados de “commodities”.
Mas onde ficam os pequenos empreendedores? Ah, aqui sinto em dizer, nossos amigos “mini-mercados” deixam a desejar. Eu sou usuário de pequenos empreendimentos, tradicionalmente mercearias e padarias, que podem me oferecer produtos básicos a preços razoáveis, mas que há muito deixaram de oferecer DIFERENCIAL COMPETITIVO, assim como não possuem a variedade de produtos e o preço oferecido por grandes redes. Infelizmente parece que a maioria dos pequenos empreendedores carece de conhecimento empresarial para tornar seu empreendimento mais ATRATIVO. As grandes redes que se instalaram em nossa cidade nos últimos anos não o fizeram por acaso, mas sim porque viram que nosso mercado estava carente de empreendimentos que pudessem trazer uma nova EXPERIÊNCIA DE COMPRA, viram uma demanda reprimida por velhos modelos que já não estavam suprindo a necessidade dos consumidores hamburguenses.
Da mesma forma, li no site do Jornal NH que a Igreja está pressionando os Senhores Vereadores com motivos e significados que ela própria não tem mais como sustentar nos dias atuais. Senhores, peço vossa atenção para um minuto de reflexão: seria mais importante para o Senhor Jesus Cristo ver seus fiéis em condições dignas, com um trabalho ainda que durante o “Sagrado Domingo de descanço” a ver seus filhos desdenhando sem emprego e sem condições de sustento e auxílio às suas famílias. Por favor, essa não é uma discussão religiosa, mas diz respeito ao direito de trabalho àqueles que dele necessitam para o sustento de suas famílias e, tenho certeza de que, se sua aprovação a esse projeto, que me parece completamente improcedente, acontecer, muitos irão perder o seu emprego em tempos que já estão bastante difíceis até mesmo para quem está muito bem qualificado para o mercado de trabalho.
Senhores Vereadores, sou um analista de sistemas que trabalha com software livre e acredita na força e poder das comunidades de tal forma a olhar para grandes grupos como a Microsoft e dizer que não necessitamos dessa empresa pois temos o poder dos programas desenvolvidos livremente por um sem fim de pessoas. Assim, penso que os diversos grupos de mercados menores podem se unir e trabalhar para atuar no fortalecimento de suas relações, desenvolvendo ações que possam visar novas formas de atender a seus consumidores-alvo, assim como ofertar uma variedade maior de produtos, a preços mais acessíveis, adquirindo-os em algum tipo de formato de cooperativa para fortalecer o poder de negociação junto às grandes cadeias de fornecedores, que diga-se de passagem também estão organizados na forma de poucas dezenas de grandes grupos. E, por que não dizer, fortalecer o desenvolvimento de produtos locais??
Senhores, infelizmente como consumidor não posso concordar com a limitação de horários e, principalmente, com os argumentos apresentados pela mídia e organizações que motivaram tal Substitutivo. Penso que houve um progresso imenso nos últimos 15 anos e esse Substitutivo seria um retrocesso no que tange a outras cidades. Lembrem-se de que muitos consumidores de cidades vizinhas vêm a Novo Hamburgo em horários alternativos para fazer compras em função de que suas atividades profissionais diárias não permitem que eles frequentem os estabelecimentos em horário comercial.
Assim, Prezados Senhores, peço que reiterem suas críticas e seu parecer em prol não somente dos trabalhadores, mas também dos consumidores, que são a razão da existência de mercados de toda e qualquer natureza.
Grato por sua atenção.
Rafael Donelli
Analista de Sistemas, Cidadão e Consumidor Hamburguense